PRECE A SÃO JOSÉ
João Eudes Costa
A multidão voltava tristonha da procissão do Senhor São José. Depois dos cânticos e orações numa passeata de fé, calou-se o sertão num silêncio de consternação e desengano. Nenhuma nuvem promissora, nenhum pingo de chuva para amenizar a angústia do Nordestino.
O sol impiedoso continua castigando a terra que há muito se arde em febre, mostrando, em seu ventre, enormes aberturas que impedem brotar a planta salvadora, semeada pelas mãos chagadas do trabalhador rural. Abre-se a terra em crateras ressequidas, onde serão sepultadas as últimas esperanças dessa gente trabalhadora, humilde e sofredora.
Orações fervorosas. Promessas de mais sacrifício e preces comoventes foram levadas para longe pelo vento morno, soprado pelo hálito da terra, que se contorce na fogueira do desengano. Apesar do sofrimento e do desânimo ainda há os que não desdobraram os joelhos, acreditando na compreensão e na bondade do querido Santo padroeiro.
Senhor São José não nos abandone nesta hora tão difícil. Estamos cansados de tamanho martírio. Nosso corpo chagado de tanto açoite, não resiste por muito tempo. Nossos filhos estão famintos e os nossos braços sem forças para lutar. Os animais que nos rodeiam estão morrendo por inanição, com fome e com sede.
O jumentinho, que o Senhor utilizou para fugir da sanha de Herodes e salvar Jesus da mortandade criminosa, está sofrendo e morrerá também. Não deixe que tudo isto aconteça. Na sua fuga para o Egito escapou de apenas um Herodes sanguinário e perverso. Hoje, são muitos e continuam matando nossos filhos, negando-lhes condições de vida, mergulhando-os na lama de miséria. Os poderosos de hoje são mais cruéis, porque perseguem e matam indistintamente, arrastando os indefesos à podridão dos cárceres, ao caminho da perversão e ao antro da indigência.
Ajude-nos, Senhor São José, a fugir desta dependência macabra, mandando a chuva para levar de roldão tanta maldade, lavar as feridas e refrescar a alma deste povo sofredor. Mande a chuva para que a terra possa fazer ressuscitar a esperança, renascer a paz, vestindo de verde os nossos campos ressecados.
Mande as chuvas, Senhor São José, para que as crianças não marquem com seus pés, na areia seca dos riachos, as suas fugas para morrerem abandonadas, longe do seu querido sertão. Não permita que o nosso sofrimento satisfaça os que torcem por nosso infortúnio, para nos encurralar como miseráveis animais famintos.
O carneirinho que enfeitou a humildade da manjedoura na linda noite do nascimento de Jesus, não deixe morrer buscando, em vão, pasto e água, sob o olhar desesperado do infeliz criador. Mande chuva para que as ovelhas, que também acompanharam Cristo na peregrinação pela terra, continuem como símbolo da paciência e do amor.
Tenha piedade, Senhor São José, dos homens e dos animais. Veja, na figura das mães aflitas, o retrato de Maria, quando os homens perseguiam Jesus para açoitar e matar. Mande as chuvas para alimentar os seios das mães que fazem do peito fraco a força que amamenta e mantém vivos os filhos anêmicos e agonizantes.
Queremos permanecer aqui, na casinha de taipa, com nossa pobreza, mas com a felicidade de pisar no tapete verde que as chuvas estenderão pelos campos, vendo brotar as lavouras, com o sagrado pão fartando as nossas mesas.
Mande chuva, Senhor São José. Ficaremos felizes e os nossos joelhos continuarão dobrados à sua imagem. Já fomos açoitados, não nos deixe ser crucificados. A covardia de Pilatos continua na terra entre os poderosos. Diariamente, lavam as mãos em vasos de prata, aquartelados em ricos palácios, indiferentes ao nosso martírio, nossa pobreza e o nosso sofrimento.

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