sexta-feira, 31 de maio de 2013

O POVO BRASILEIRO E A UNIÃO DAS RAÇAS


POVO BRASILEIRO

Da união das três ´raças´ ao discurso intercultural

31.05.2013
"Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro". A análise do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre toca em um dos pontos delicados da história do País: o mito da miscigenação.

A luta do povo negro brasileiro continua: saiu das senzalas e ganhou as ruas FOTO: CID BARBOSA

A discussão é oportuna, sobretudo no momento em que está sendo esboçado um novo retrato da árvore genealógica do povo brasileiro, quando negros, indígenas e demais etnias ganham voz no novo discurso.

O século XXI marca mais um capítulo na luta destes segmentos étnicos no Brasil. Cada vez mais, indígenas e negros viram sujeitos do presente, deixando de ser vistos como alegorias de um passado não muito distante. Numa escala imaginária sobre essas conquistas no País, as populações negras e indígenas estão bastante adiantadas em relação aos ciganos, por exemplo.

A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), criada em 2003, contabiliza 2.176 comunidades quilombolas identificadas oficialmente contra 1.834 certificadas, desse total 63% estão no Nordeste. Existem 1.167 processos abertos e 192 comunidades tituladas no País. No Ceará, estima-se que existam cerca de 98 comunidades quilombolas, mas nenhuma possui titulação.

Algumas reivindicam bens simbólicos, enquanto outras, terra, água, educação, saúde e trabalho. Hoje, 51% da população brasileira se autodefine como negra, como mostrou o censo 2010. E essa mudança não acontece por acaso, mas é fruto de processo que se desenvolve ao longo de sua história, sendo possível identificar alguns marcos.

A Constituição de 1988 e a retomada dos movimentos sociais a partir da década de 1970 são fundamentais para a luta pelo reconhecimento dos direitos das chamadas minorias que inclui, entre outras, os ciganos que chegaram aqui no início da colonização estão até hoje.

A luta que saiu das "senzalas" e dos "mocambos" para ganhar as ruas, não para. E sua capilaridade atinge outras instâncias do poder, provocando a criação de leis, a exemplo do reconhecimento dos povos indígenas que somam 400 etnias com mais de 180 línguas.

Da "Lei do Ventre Livre", de 1871, até se chegar à política de cotas nas universidades brasileiras para as populações indígenas e negras, foi um longo caminho. Para alguns especialistas, não se trata, de pagamento de uma dívida secular, mas uma forma de reconhecimento das diferenças. "O Brasil começa a se tornar uma sociedade mais plural", defende Vânia Fialho, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Conforme Gilberto Freyre, "formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio - e mais tarde de negro - na composição. Uma das características do colonizador português era a vontade de fixação à terra recém-povoada. Eles se dispunham a formar família e a trabalhar na terra."

Adaptação

Daí a adaptação do português ao Brasil e sua relação com os seus primeiros habitantes, divididos entre índios bravos e mansos, na visão dos primeiros visitantes. "A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-se em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África".

Freyre ilustra essa realidade ao tentar desenhar, em Casa Grande e Senzala, um retrato da organização social do Brasil colonial. Usa como marco da organização econômica e civil da sociedade brasileira, o ano de 1532, um século após o contato dos portugueses com os trópicos e demonstrando a aptidão para a vida tropical na Índia e na África.

Sobre o modelo usado por Freyre como metáfora sobre a colonização brasileira, Carlos Benedito da Silva, antropólogo e professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), acredita que continua atual. "O projeto econômico instaurado no Brasil, desde a sua fundação, perpetua essa relação". Já os negros, além das condições precárias do transporte desde o continente africano, os constantes castigos e submissão ao trabalho forçado foram causadores da morte de milhares de africanos e descendentes escravizados.

No Brasil, especialmente as sociedades regionalizadas do Norte e Nordeste e, principalmente os municípios do interior dos Estados, ainda permanecem na contradição histórica do fim do século XIX, materializada no conflito entre a implantação do trabalho assalariado com a mão de obra escrava. "Ainda predominam as relações de compadrio, onde as pessoas e grupos são beneficiados ou protegidos pelas relações de dependência que mantêm com o que se convencionou chamar de "caciques políticos", critica o antropólogo.

Chegou-se ao Brasil em 1500, em plena era moderna na Europa, daí o estranhamento dos colonizadores ao se depararem com homens e mulheres nus. Darcy Ribeiro, no livro "O povo brasileiro", atribui o surgimento da sociedade brasileira à "confluência", do invasor português com índios nativos e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.

IRACEMA SALESREPÓRTER 

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