terça-feira, 26 de março de 2013

FORTALEZA, A CAPITAL DO MEDO


Histórias de quem trabalha com o medo

O POVO conta histórias de profissionais que lidam diariamente com as consequências da violência urbana. Especialistas apontam que o medo exacerbado gera mais violência e o impacto emocional pode adoecer o organismo

A ex-cobradora de ônibus, o vigilante e o ex-policial militar contam histórias de tensão e perigo vivenciadas no trabalho

Numa cidade como Fortaleza, apontada como a 13ª mais violenta do mundo (entre as grandes metrópoles), eles trabalham em constante estado de alerta. São treinados para a antecipação da tragédia. Um vigilante, um médico emergencista, um ex-policial militar e uma ex-cobradora de ônibus: duplos reféns de uma “cidade sitiada”, em que “não se sabe o que pode acontecer na próxima esquina”, define o psiquiatra Agamenon Honório.

Se antes as patologias mentais clássicas eram as psicoses e neuroses, hoje o mais comum é o estresse, compara Agamenon: “O medo principal na cidade hoje é o medo de ser assaltado, coisa que há 30 anos não existia”. O resultado são os transtornos de ansiedade generalizada, as síndromes do pânico e os transtornos de estresse pós-traumático. E o emocional afeta o corpo, causando lesão orgânica por tabela. “O coração vai bater mais depressa, a pressão arterial sobe, a respiração torna-se mais rápida e vai afetando as funções do corpo, que começam a falhar”.

O processo é cíclico, defende Leonardo Sá, cientista social e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC): “Existe uma circularidade. A percepção da violência é fundamental para a formação de uma sensação de segurança ou insegurança, mas a percepção da violência não se desloca totalmente da realidade dos fatos. É claro que o medo pode gerar mais violência. O medo, que é efeito, vira causa de mais violência”.

O medo de vestir a farda, por exemplo, foi o que levou um ex-policial militar, hoje reformado por esquizofrenia, a querer distância da função de PM. Ele diz que o sonho de ser policial esbarrou na discriminação dos superiores. “Para mim, é um alivio não vestir farda”, diz o homem de 39 anos, que prefere não se identificar. Ele afirma ter visto um capitão atirar no rosto de um preso num princípio de confusão na penitenciária e se queixa de falta de apoio psicológico por parte da Polícia.

O medo, aliado ao cansaço, também é o motor que vem impulsionando o médico veterano José Maria Pontes - presidente do Sindicato dos Médicos e há 30 anos plantonista do Frotinha de Parangaba – a repensar a profissão. “Não aguento mais ver as pessoas morrerem. Saio do plantão preocupado com o próximo domingo. Durante o plantão, quando você vê aquilo, começa a imaginar: ‘Não é possível que as pessoas continuem morrendo e nada se faça’. Estou cansado”, desabafa.

Em relação ao médico, o vigilante Luciano Fernandes lida com o medo ainda mais de perto. A regra número um do emprego, ensina, é engolir - e depois aceitar e conter as confusões. Nos 15 anos de profissão, já foi forçado a acalmar um paciente soropositivo que, descontrolado, ameaçava pacientes e acompanhantes, num hospital público de Fortaleza, apontando uma seringa cheia de vírus HIV; e também carrega no currículo ameaça de morte sofrida num terminal, por criminoso de extensa ficha criminal; e também já foi obrigado a socorrer vítimas de linchamento e agressão por faca.

Situações envolvendo outros instrumentos, além da faca, fizeram parte da rotina da ex-cobradora de ônibus, Albena Aires, assaltada 13 vezes em dez anos de profissão: inclui abordagens com mordida, gargalo de garrafa e revólver. Um dia, cansou. “Deixei porque já estava com síndrome do pânico”. Hoje a vida é mais tranquila: trabalha como recepcionista de um hospital público. “Às vezes, aparece uma pessoa louca, mas a gente consegue lidar. Não é tão violento”.

O POVO tentou entrar em contato com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, na última sexta-feira, 22, mas as ligações para a assessoria de imprensa não foram atendidas.

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